Viver da reciclagem no Brasil não dá certo
15/08/2013 07:31
Nosso querido país não é um país sério.
Ainda não podemos pensar em viver da reciclagem de materiais plásticos com seriedade.
Vamos aos pontos que determinam essa postura, discorrendo em cada um deles a fim de expressar uma opinião séria de quem viveu a realidade:
Fornecedores: A maioria se intitula como comércio de aparas, mas na verdade o que são as tais aparas? Inexistem pois o que de fato comercializam são embalagens e produtos feitos de resinas plásticas das mais diversas possíveis fabricadas.
As aparas seriam filetes, refiles ou partes do processo produtivo, mas que não são colocadas no lixo industrial, são reutilizadas nas próprias empresas que as geram.
Então a cadeia de fornecedores se utiliza de uma nomenclatura falsa; seriam comércio de recicláveis e ponto final.
Matéria-prima: A matéria prima como explanado anteriormente, baseia-se em materiais coletados em empresas ( material pós consumo industrial ) lixo industrial propriamente dito e lixo doméstico que é recebido das empresas a valores irrisórios e comercializados a preços inviáveis.
Como matéria prima, contamos; embalagens plásticas, filmes e todo tipo de envase de produtos como frascos garrafas e outros do gênero.
Geralmente essas embalagens vêm acompanhadas de rótulos, etiquetas e resíduos que precisam ser removidos para poder ser reciclados.
O custo da reciclagem começa por aí, pois a quebra do quilo de matéria prima gira em cerca de 40%.
Clientes: Aqui inicia o calvário do reciclador, que então após coletar o material, processar ele e transformar em matéria prima decente enfrentar o primeiro round: Preço.
O preço de venda têm obrigatoriamente de ser menor que o material virgem. Ora, então quem compra matéria prima virgem, vende seu produto e obtém seu lucro ( geralmente na casa de 200% ) não tem nenhuma preocupação com a LOGÍSTICA REVERSA?
Como essas empresas alegam certificações ambientais e em momento algum trata seus produtos após o uso e vida útil dos mesmos ter encerrado?
Fica fácil ganhar assim, pois faço o produto, vendo e depois a cadeia de reciclagem que se vire?
Ok, o reciclador quando ganha algo, fica na casa dos 3% sobre o preço de compra da matéria prima, arcando com os custos de reciclagem....
Entendo porque reciclagem funciona bem com dinheiro público, afinal e contas ninguém quer o incômodo de lidar com o lixo.... Confortável não?
Mas e as políticas públicas, leis e outros dispositivos legais?
Nada acontece, afinal aqui é Brasil e lei só funciona contra que não pode pagar para se defender.
Bem, voltando ao preço de venda, se calcularmos os custos de reciclagem e o custo ambiental da poluição latente( plástico degrada-se após algumas centenas de anos )o reciclador nada ganha, apenas troca favores e tenta tirar algum para pagar alguma coisa e fica por aí...
O único produto reciclado que é vendido mais caro que o novo é o famoso papel, aquele que você coloca na impressora e imprime seus trabalhos, relatórios e outros tantos...
Ah, mas apresentar um relatório em papel reciclado demonstra preocupação com o meio ambiente e pago mais caro para não derrubarem mais árvores, etc...
Conversa fiada!
A madeira utilizada para fazer aquele papel vem de reflorestamento criado e mantido para tal.
Ah, mas custa caro reciclar papel...
Também custa caro reciclar o plástico, que precisa ser lavado, higienizado para depois voltar ao ciclo produtivo.
Mas o consumidor final não vê isso, consegue ver no papel, mas não no plástico, no metal, no vidro...
E nem mesmo tem como saber se o plástico do copo descartável não é reciclado ( muitas vezes é sim..), não consegue saber se tanto utensílio para embalar queijo, manteiga, leite e biscoitos das crianças foi feito com material reciclado e higienizado ( como é??) .
Pois é; tanto produto de contato com alimentos é feito com reciclado, muito material higienizado, mas uma parte não o é, vai daí.
Bem , a polêmica é instalada, mas é fato: Muita embalagem de alimento é feita com reciclado, ninguém morreu ou adoeceu, mas é fato e acontece, pois o plástico é reciclável e o processo ( pelo menos o que trabalhei ) permite lavar e garantir que bactérias não sejam propagadas, mas o grosso do volume reciclado é feito de forma que o material não seja aquecido a altas temperaturas o que permite que uma bactéria resistente sobreviva e siga num produto plástico qualquer.
Futuro da reciclagem do plástico: Vejo o futuro com incertezas pois não acredito que a tão falada pelos ecochatos PNRS ( Política Nacional de Resíduos Sólidos ) surta efeitos positivos a médio e longo prazo. Temos exigências nela impossíveis de acontecer sem que hajam investimentos e leis duras de fato contra poluidores.
Na PNRS fala-se em logística reversa mas quem a pratica?
Creio que menos de 10% da indústria o faça e creio ainda que em 50 anos talvez 30% da indústria faça algo para que isso aconteça.
Alguns setores já reciclam seus resíduos, pois um produto com uma falha na injeção, pode ser moído e reprocessado, sem prejuízo algum ao produto final, mas quem importa produtos embalados e que reembala no Brasil, não se preocupa com as embalagens recebidas, contrata um comércio de aparas que recebe o material a preço simbólico, leva para suas instalações, prensa tudo num fardo e precifica o material de acordo com sua vontade.
Falei anteriormente dos ecochatos e agora quero explicar quem são: Sabe aquela criatura que acha que tudo o que é fabricado polui e que deveriam acabar com sacolas plásticas, sem saber a bobagem que falam? Esses são os ecochatos.
Na verdade são pessoas de ótima índole que resolveram abraçar uma causa, mas não estudaram a fundo o que vão defender e a partir de então, iniciam marcha contra tudo que é industrializado e contra a indústria como um todo.
Preocupam-se em saber se o algodão foi cultivado sem agrotóxicos e se o corante do tecido não vai agredir o meio ambiente, mas pouco se importam em saber se o plantio do algodão foi feito em solo brasileiro, se a mão de obra não usa crianças, se o fabricante do corante realmente destina os resíduos a empresas sérias de reciclagem e por fim; se a embalagem que contém o produto adquirido vai ser destinada a empresas de reciclagem ou a comércio de aparas.
Para defender o meio ambiente não precisa uma bandeira, basta sim ter atitude sem alardes sem, propagandas.
Aliás, fazer propagandas em sites, demanda energia, que muitas vezes provém de usinas que poluem, ou que modificaram a natureza...
Bem, o assunto é longo e poderia ser base para grandes discussões, mas o objetivo maior é alertar a indústria que barganha preços extorsivos sobre um produto que têm alto custo direto e altíssimo custo indireto, mas que é renegado por todos que ainda não entenderam que preocupação com meio ambiente é muito maior do que se conseguiu imaginar.
Eu, tenho ainda uma vaga idéia, e você?
—————
